2025

Autores André Rocha[1], Rita Olivença

Orientação por Professora Doutora Mónica Mendes e Professor Doutor Nuno Correia

Com a participação de Catarina Ribeiro, Pedro Caetano

Resumo

OSKAR é uma instalação interativa experimental e simultaneamente um artefato vestível digital - wearable - que parte do exercício Stäbetanz (nome original), ou “Stick Dance” de Oskar Schlemmer para explorar relações entre corpo, movimento, restrição e tecnologia.

Oskar Schlemmer trabalhava sobre as relações do corpo no espaço, geometrizando as formas através da limitação do movimento do corpo como meio de exploração de novas linguagens artísticas. A instalação-performance propõe uma reflexão sobre como as restrições físicas e digitais podem, paradoxalmente, abrir novos territórios de exploração corporal. A obra “Stick Dance” é referência e ponto de partida para um processo exploratório de novas formas de interação do performer com o corpo, com o outro e com o espaço através de artefactos vestíveis digitais.

A metodologia usada é intervencionista, recorrendo sempre à pesquisa e experimentação no desenvolvimento da ferramenta de interação digital para a instalação e uso na exposição, quer na aplicação desta ao utilização pelos performers.

Introdução

Este projeto foi iniciado com a participação da autora na Unidade Curricular Tecnologia dos Media, do Doutoramento em Media Digitais da NOVA FCT. Posteriormente, já em parceria com o co-autor André Rocha, apresentaram candidatura às residências artísticas do Periphera 2025 – Festival de Arte Digital da Trafaria com uma evolução do processo conceptual inicial, tendo sido aceites. As residências decorreram de 6 a 26 de outubro de 2025 no presídio da Trafaria e as apresentações no Festival entre os dias 14 e 16 de novembro de 2025, no Convento dos Capuchos na Costa da Caparica. Tendo como ponto de partida o performance “Stick Dance” de Oskar Schlemmer, foi desenvolvido uma versão digital da mesma, baseada em reconhecimento video, dinâmico, de posturas corporais que geravam um modelo sobre o qual eram sobrepostos os bastões de Schlemer. Ao contrário das restrições físicas ao movimento geradas pela configuração original de Schlemer, aqui, questionava-se a relação do movimento com esta configuração virtual. A apresentação pública aconteceu em formato de instalação interativa, através da qual o público era convidado a interagir com o modelo de bastões virtuais de Oskar Schlemer. Para além disso, foram convidados tanto para a fase de desenvolvimento do modelo interativo em residência, como para a apresentação pública da exposição, na qual, os artistas circenses Pedro Caetano e Catarina Ribeiro, que apresentaram uma performance através da qual exploraram diálogos entre o modelo físico de Schlemmer (também replicado pelos autores) e modelo virtual acima descrito. Nas próximas secções deste documento será apresentado um enquadramento teórico, a metodologia, o modelo tecnológico, bem como a documentação relativa tanto à instalação interativa como à performance.

Enquadramento e trabalho relacionado

Oskar Schlemmer (1888-1943), mestre da forma, pintor e coreógrafo na Bauhaus, trabalhava as relações do corpo no espaço, geometrizando as formas através da limitação do movimento corporal como meio de exploração de novas linguagens artísticas. Uma das suas obras mais marcantes é Triadisches Ballett (1922), em que desenha os figurinos com características físicas e materiais que restringem o movimento natural do corpo, procurando a sua geometrização*.* Enquanto diretor da oficina de teatro da Bauhaus, desenvolveu exercícios em que os performers eram corpos abstratos, condicionados a movimentos limitados por objetos, de forma a explorar novas linguagens expressivas. Os bailarinos/performers eram motivados a se mover/dançar adaptando-se às restrições dos wearables (Danjoux, 2019). Tendo a obra “Stick dance” (1928) como base conceptual e visual, transferimos a ideia para uma instalação-performance que recorre a artefactos vestíveis digitais para Artes Circenses.

OSKAR trata-se de uma ferramenta múltipla de criação e de uma base do trabalho para projetos que pretendam relacionar o corpo circense com os adereços e figurinos e a projeção videográfica como parte da cenografia. Esta projeção digital surge do trabalho prévio desenvolvido por Rita Olivença na sua Dissertação de Mestrado: Movimento como Interação - Contributos para o uso de artefactos vestíveis nas artes performativas (Olivença, 2023) e de colaborações com André Rocha onde exploraram diferentes formas de utilização da deteção de movimento para geração gráfica, nomeadamente a participação na exposição online Ludic Aesthetics, integrada no Processing Community Day da FBAUP com o projeto Traffic Light Circus - Circo Semáforo, a continuidade para o Poema Vento (bibliografia - zenodo), que evoluiu para a participação em instalação coletiva Escola dos Labirintos, com a Associação OSSO e apresentação em quatro espaços distintos, e finalmente a sua consolidação no Festival Periphera, aqui descrita.

Oskar Schlemmer torna-se um ponto de partida simbólico pela sua exploração do espaço e do movimento, condicionada pelos bastões e pela forma como essa limitação incentiva a expressão de novas linguagens corporais, exploração do espaço circundante ou novas interações corporais.

Para além do trabalho de Oskar Schlemmer é também de destacar enquanto referência o trabalho desenvolvido pelos criadores Adrien M. & Claire B., nomeadamente nos projetos Just you shadow, Les paysages abstraits, Le mouvement de l’air e a colaboração com a companhia Kafig e com Mourad Merzouki no espetáculo Pixel. Inserimos também nos anexos duas imagens de referência cuja origem desconhecemos.

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Stilt dancer, 1927, Desenho de Oskar Schlemer para o exercício Stick Dance, onde é evidente a dualidade dos corpos em tensão mecânica e com caracteristicas e necessidades orgânicas.

Stilt dancer, 1927, Desenho de Oskar Schlemer para o exercício Stick Dance, onde é evidente a dualidade dos corpos em tensão mecânica e com caracteristicas e necessidades orgânicas.

Primeiro esboço da ideia no caderno da autora.

Primeiro esboço da ideia no caderno da autora.